O cursor pisca e eu nem sei mais o que escrever. Não costumo relatar-me assim, ao som de tics e tacs do teclado, com uma tela clara em frente. Mas, não sei se conseguiria escrever de outra forma. O papel branco, reluzente até, ficaria molhado em pouco tempo. A mão tremeria, o lápis borraria e repentinamente eu esqueceria o meu propósito inicial: o vômito. Assim, ao menos, consigo. Vagarosamente as letras vão aparecendo (porque aparecem simplesmente, não são delineadas). A cada toque leve no teclado elevo-me a um estado desconhecido de dor, encanto, acalento e confusão, tudo junto, como uma salada de frutas com legumes; que estranho é o gosto, como o estranho. Extrañote. Mucho.
A coisa toda reflete um não saber o que se passa dentro de si, ou até um não saber o que se passa dentro de ti. Uma angústia, mas diferente de outros dias. Diferente da última, que ainda respinga nessa. Diferente da angústia estranha que causa uma aproximação da morte.
Trago dentro de mim uma inquietude, que quer sair de alguma forma. Sai por palavras, esse vômito contínuo e genuíno de sofreguidão e mágoa, esse misto de sensações e de cores, minha salada abrangente. Como se nada mais parecesse importar. Só a minha mágoa.
Mais cedo sonhava, agora aborreço-me, irrito-me com qualquer perspectiva de futuro ao lado teu. Mui parcial, é verdade, impulsivo, também. Mesmo assim, me controlo por ti, ainda, sem saber ao certo o porquê; nome de filhos, vida futura, estranho e cotidiano sentimento de pertencimento, de eternidade, finito com o caixão lacrado mais cedo, com os tijolos e blocos por baixo do cimento que marcava um nome. Mas era só um corpo. Era só carne.
Não sei, pode ser que não. Pode ser que seja apenas um delírio meu culpar algo representativamente dissonante à minha própria angústia. Tu me deixas assim carente. Eu sofro e sofro sozinha. Tu chegas e o que faço? Choro? Não sei se vale a pena. Eu brigo, eu relato, eu esgoelo. Eu. Já é hora de mudança.
Vivo em busca de um afago, de um carinho. Tu és tão carinhoso quando próximo... Te afastas, some, morro por dentro. E morro um pouquinho a cada dia, como se eu mesma me consumisse inconfundivelmente ao horário do desajuno, do almoço, da janta, da sesta. Lentas mordidas, cinco, dez, quinze por vez. O que me sobram são lágrimas quentes, que escorrem às vezes por minha tez tremida por cravos e espinhas que não esprememos juntos. Não queres que cuide meus braços em outros que não os seus. Mas me largas ao relento, ao vento frio da madrugada, dia após dia, todas as manhãs... Não cuidas. Como puedo decirte sem te machucar? Sem que aches que tenho outros braços de fato ou outro coração dentro do meu? No puedo, seguro. Isso que dói mais.
Chorei e não conseguir mascarar. Chorei a tua falta, chorei em tua presença. Não sei explicar o que já expliquei.
As mãos já não querem mais escrever, mas insisto. É a força do insistir que tenho pra lutar. Já não sei mais quem me disse o que, quais as palavras de consolo que ouvi, quem me acalentou nos últimos dias. Onde está você? Onde está quando mais preciso? Em algum lugar, além de dentro de mim, querendo ganhar asas de liberdade. ¿Que voy hacer? Não sei e também não quero mais questionar. Já está na hora de parar de vomitar.
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