[...] Um pouco antes da estação final levantei-me e peguei minhas coisas. Não apenas peguei-as; fiz certo malabarismo para (a) apanhar a mochila, (b) passar uma das alças pelo braço, (c) pegar a bolsa pelo mesmo lado, (d) passar a alça da mochila pelo outro braço e (e) trocar a bolsa de lado - detesto carregá-la sobre o ombro esquerdo. Sempre atribuí essa frescura à escoliose, que causou um leve rebaixamento em meu ombro direito. Um riso escandaloso no trem vazio quebrou minha sequência de pensamentos sobre bolsas, mochilas e escolioses. Voltei-me a mulher gorda listrada de preto e branco, que agora cochichava ao marido tão discretamente quanto ria: "você viu aquilo?". O sangue subiu à cabeça. Odiei a mulher, encarando-a. Qual era o seu problema, eu era engraçada? Era divertido ver-me lidar com bolsas pesadas, em movimento? É, provavelmente era sim e isso oxigenou meu rancor. Voltou a rir e eu a encará-la. Enquanto pude observar, não dirigiu-me o olhar por um só segundo, embora eu estivesse louca para que isso acontecesse.
Desci do metrô odiando todas aquelas pessoas, formigas que surgiam do nada. Odiei voltar pra casa naquela situação [falta de dinheiro], odiei a roleta que me separava do passo adiante e pensei em dar meia volta, ir embora de novo. Percebi naquele momento o quanto queria ficar sozinha, sem memórias, sem ter que visitar ninguém, no passado ou no futuro.
A roda reluzente do ônibus me pareceu lânguida e triste, como se emanasse um brilho que não era seu. Ainda assim, suportava o peso devido, nascera para essa função, mesmo sem tê-la escolhido. Entrei e me sentia enjoada e enojada de mim mesma, de certa forma. Não nutria sentimentos ruins, até bem pouco tempo atrás, quando me descobri humana e passível de erros; a todo o momento faço coisas que não creio certas. Acho que congelei muito, por tempo considerável, o que sentia; mas aflorou por esses dias, enfim. Parecia cansada e com dor. Fragilidade mesmo, pura frescura. Dormi, pura preguiça.
[A parte I não foi publicada. Ficará apenas em minha agenda]
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Metrô - parte II
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