Entrara como uma diva
Como se de todos a presença quisesse
Sabida do carmim que a boca cativa
Deixa ver a beleza daquele Tristesse
Cabelo que voa ao mar beijando a orla
Sorriso pr'alem do tocável, chegava de lado
Me tange e me queima a negrura dos olhos
Como se eu pudesse me largar sentado
Não fez-se mais colorido o dia
Nem mesmo mais viscoso o tempo
Mas o espasmo daquele momento
Manteve em meu olhar singela alegria
Tão fugaz quanto o encanto do vento
Me escapas a revelia das horas
Esqueces de mim, seco, sem pensamento
Levas consigo o charme que defloras
Não publicado anteriormente pq deixei no facebook.
Memórias do Rio e da baía.
Marcadores: beleza , falsas memórias , memória , momentos , poesia
Sobre a memória
Memos, 1976 - Augusto de Campos
Sem querer tirar a graça, copio o pedaço que mais me toca:
"Amargo este momento a mais que a memória morde mas não consegue amar"
Sensacional.
Está na hora de fazer o trabalho do João. Aiai...
#suspiros
Sobre a Nina, a Mirna e a Surya
Hoje estive pensando sobre a minha atual tendência a dualidade. Ou sobre a minha querelância (!) e insistência em presumir que as coisas são divididas em polos. E isso pode ser reflexo de um monte de coisas, especialmente dos primeiros capítulos do Kundera. Ou, ainda, ser um pressuposto para a 3ª leitura.
E agora eu lembrei, meio que do nada*, das minhas personas. Observando atentamente dá pra perceber nelas pedacinhos muito claros do que eu sou. Ando me questionando se a a gente só consegue (ou seja, eu só consigo) falar daquilo que me diz respeito. Ouvi umas 3 vezes essa semana que eu estava melhorando a minha escuta analítica (sem Freuds perdidos na frase! rs)... E aí, ao olhar mais profundamente, percebi que eu só consegui analisar as situações que pessoas X viviam porque as histórias convergiam ou se pareciam muito com a minha própria. Será que a gente só sabe falar de si, mesmo quando olha pro outro? Ou melhor, será que eu só falo de mim quando olho pro outro? E será essa identificação necessária ou importante para a compreensão da dor... pelo co-sentimento da dor do outro?
Ou será que isso só me faz uma péssima psicóloga? Hahahaha.
Mas o post era sobre a Nina, a Mirna e a Surya. Como já constatei que são partes de mim mesma, prefiro parar por aqui.
Ou quase.
Lembrei de quando falei pra minha amiga Tomata que eu era bipolar. Eu não tinha idéia do que eu tava falando, não sabia nada do distúrbio. Mas eu achava que me encaixava muito certinho no que eu tinha como idéia de bipolaridade: alguém que ora é uma coisa, ora é outra. Era um exagero dizer que eu era bipolar, mas eu me sentia assim. Lembro ainda do olhar de seriedade que ela lançou sobre o assunto, por trás dos óculos... Ela queria que eu conversasse com sua a tia médica. Me senti acolhida (obrigada, Tominha)... No mesmo ano dei de aniversário pra ela um livro que ela queria muito, aquele da Ana Beatriz Whatever, o Mentes Inquietas. Anos mais tarde, eu que lia esse livro, buscando base para uma possível Iniciação. Interessante eu ter virado psicóloga. Interessante ela ter virado médica.
Sei lá porque lembrei disso. Dá uma nostalgia, uma saudadinha; essa é dessas histórias que saem da bolsa amarela...
Acho que não quero mais falar de partes. Eu quero o todo.
* "do nada" significa fuga-esquiva de ler Nietzsche as 10 e meia da noite, com sono.
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Coisas que ficam popping-up quando você tem outras pra fazer
Estou transcrevendo a tertúlia* da Eva com as crianças da escola onde fez intervenção. Surge o assunto namoro no grupo e uma das meninas diz que vai começar a namorar com 15 anos. É tão engraçado quando a gente é criança e acha que tem uma data certa pra tudo... Pior é perceber que trazemos "datas certas" pra fase adulta, p. ex., "vou me casar com uns 27 anos e ter filhos por volta dos 30". Ou "vou casar depois da faculdade". Tá, tá bom.
Marcadores: histórias , memória , reflexões , relacionamentos
As mentiras que as crianças contam
Sempre fui uma criança esquisita. Considero que tinha uma boa imaginação só para não pensar que eu era uma mentirosa.
As histórias eram boas e só começaram a ser reconhecidas por volta da quinta série, com a professora de Redação elogiando. Nesses tempos eu achava que ia ser escritora. A vida é engraçada mesmo, hoje o máximo que escrevo são textos perdidos nos blogs da vida vez em quando. O fato é que antes da Glauce, a minha capacidade era canalizada para o vocal, quase nada de papéis. Isso sempre foi muio mal interpretado e, por mais estranho (ou burro) que pareça, eu só não mentia para os meus pais. Não faço a menor idéia se por medo ou qualquer outra razão. Meus pais sabiam do meu histórico criativo e nunca acreditavam no que eu falava para eles - a verdade. Talvez, conhecendo a minha cabeça doente, eu falasse a verdade simplesmente para ter razão. Mas ainda acho isso bem burro. Já que mente pra todo mundo, porque não omitir que "apertou, mas não bateu" na irmãzinha, ou dizer que "não bateu e ela é louca"? (essa última não seria totalmente mentira...)
É a tal da história do menino e o lobo. E olha que eu ouvi essa história, hein?
Mas não vou dizer que nunca me salvei por mentir. Lembro de uma vez, a professora passou uma lição sobre contos de antes de dormir. Não sei o nome que ela deu para isso, mas não era "conto de fadas"; eu não tinha idéia do que era, nem minha mãe, nem ninguém. Foi angustiante. Escrevi a história indo para a escola, no carro, totalmente fantasiosa, e quando cheguei lá a professora pediu para que lessemos. Meus amigos foram contando e eu morrendo, querendo me enfiar na cadeira. Apareceram milhões de histórias que eu conhecia. Me senti muito burra. Quando eu contei a minha, só eu sabia. Literalmente. A professora fez uma cara estranha, meus amigos também, ninguém entendeu nada. Eu disse que era uma história passada de mãe para filha, há anos. Só eu tinha que saber mesmo.
Ai, senhor.
O que me consola é que eu deixei essa criatividade toda an infância. Conto no máximo uma ou outra mentirinha social; nada demais ou muito grave. E é de vez em quando. Às vezes perco excelentes oportunidades de contar uma. Ou de ficar quieta, no mínimo.
Bom, não foi o que eu escrevi há dois posts...
A história de Bruno
Arrumando minhas coisas achei uma pasta cheia de textos que escrevi (acho que) dos 14 aos 18 anos. Bi-zar-ro. Eu costumava chamar essa pasta de "minha vida" e as únicas que passaram o olho por todo o seu conteúdo fomos eu e a Maíra. Foi nessa época que a gente inventou de fazer um filme.
Cada coisa que a gente pensa, num tá no gibi. O bizarro é que eu consigo traçar paralelos muito próximos com algumas das pessoas com quem convivi aos 15/16/17. A gente escreve mesmo sobre o que está passando, por mais que tente disfarçar ou florear. Lembro de gostar tanto desse Bruno que comecei a detestá-lo por não gostar de mim. Ele nem era tão revoltado assim, na verdade só me aborreci com ele porque nossa amizade tinha acabado e eu precisava de um bode expiatório. Ou não, né?
Eu devia mesmo era ter gritado com ele, batido, ou sei lá. Que eu fiz? Fui escrever... Adorava escrever sobre as pessoas com quem me irritava. Criava uns personagens bem bobinhos pra eles e uma persona maravilhosa que me representava; nas minhas tramas imaginárias, eu tinha idéias revolucionárias e uma fala brilhante que acabava com os outros. Bem, há controvérsias.
O caso é que eu só ficava imaginando, à la Doug Funny, essas estórias, até começar a escrever sobre o Bruno - que se chamava Danilo. Se eu um dia melhorar o texto, terminar o livro, publicá-lo e ganhar muito dinheiro, posso agradecê-lo publicamente.
Metrô - parte II
[...] Um pouco antes da estação final levantei-me e peguei minhas coisas. Não apenas peguei-as; fiz certo malabarismo para (a) apanhar a mochila, (b) passar uma das alças pelo braço, (c) pegar a bolsa pelo mesmo lado, (d) passar a alça da mochila pelo outro braço e (e) trocar a bolsa de lado - detesto carregá-la sobre o ombro esquerdo. Sempre atribuí essa frescura à escoliose, que causou um leve rebaixamento em meu ombro direito. Um riso escandaloso no trem vazio quebrou minha sequência de pensamentos sobre bolsas, mochilas e escolioses. Voltei-me a mulher gorda listrada de preto e branco, que agora cochichava ao marido tão discretamente quanto ria: "você viu aquilo?". O sangue subiu à cabeça. Odiei a mulher, encarando-a. Qual era o seu problema, eu era engraçada? Era divertido ver-me lidar com bolsas pesadas, em movimento? É, provavelmente era sim e isso oxigenou meu rancor. Voltou a rir e eu a encará-la. Enquanto pude observar, não dirigiu-me o olhar por um só segundo, embora eu estivesse louca para que isso acontecesse.
Desci do metrô odiando todas aquelas pessoas, formigas que surgiam do nada. Odiei voltar pra casa naquela situação [falta de dinheiro], odiei a roleta que me separava do passo adiante e pensei em dar meia volta, ir embora de novo. Percebi naquele momento o quanto queria ficar sozinha, sem memórias, sem ter que visitar ninguém, no passado ou no futuro.
A roda reluzente do ônibus me pareceu lânguida e triste, como se emanasse um brilho que não era seu. Ainda assim, suportava o peso devido, nascera para essa função, mesmo sem tê-la escolhido. Entrei e me sentia enjoada e enojada de mim mesma, de certa forma. Não nutria sentimentos ruins, até bem pouco tempo atrás, quando me descobri humana e passível de erros; a todo o momento faço coisas que não creio certas. Acho que congelei muito, por tempo considerável, o que sentia; mas aflorou por esses dias, enfim. Parecia cansada e com dor. Fragilidade mesmo, pura frescura. Dormi, pura preguiça.
[A parte I não foi publicada. Ficará apenas em minha agenda]
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