Estava de costas para ele, à janela. Observava de longe a luz acesa esquecida em sua casa, distante algumas quadras. Ele, ainda na cama, chamava-a de volta, como um diabético, que não pode ter seu doce. Mas já a saboreara outras vezes; não entendia essa sua resistência, não parecia estar cansada e isso seu vigor em lhe dar prazer revelara. Ela estava distante, pediu para acender um cigarro e ele não deixou.
Fechou os olhos então. Estava nua à janela, cabelos ao vento suave, aquele era o inicio de primavera mais interessante de sua vida, tinha certeza. Por cima de seu ombro direito podia ver seus olhos verdes iluminados pela luz de fora. Estava cansado, seu corpo repousava sobre a cama, numa tranqüilidade muito sua. Piscava lentamente para ela, com o sorriso carnudo de sua boca muito vermelha. Ela suspirou e pediu um cigarro. Estendeu-lhe a mão, ela acendeu. Daquele vulto curvilíneo ele podia ver a fumaça serpentear para fora do quarto. Ela se preocupou com o cheiro e pediu que lhe abrisse a bolsa e achasse um creme de mãos qualquer esquecido há dias. As mãos cheias de rosa tocaram-lhe as pernas e as coxas e subiram até o rosto. Fitaram-se. Nada mais importava, estavam ali, a sós, íntimos. Naquele quarto onde tantas vezes se desencontraram.
Abriu os olhos. “Preciso ir”, disse secamente e ele continuou sem entender. Ela vestiu sua blusa, ele a calça. O caminho até a porta de entrada parecia longo, inóspito e, no fim, era apenas silencioso, limite dos segredos de cada um. Foi que o verde dos seus olhos lhe apareceu como um raio fulminante, na altura da cozinha, como se representasse uma mudança de planos. Ela titubeou, claramente, e os dois compreenderam a mentira de quando ele a perguntara sobre o seu apreço. Acenou com a cabeça. O outro se tornara mero coadjuvante em sua história. Cada vez que fechasse os olhos enxergaria os seus, de ninguém mais. Essa era a sua sina.
Resiliência
por
mainina
quinta-feira, outubro 22, 2009
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