Inquietações

Escrevi esperando o ônibus pra voltar pra Sampa, na segunda-feira de calor que foi dia 10.


Cada vez que penso numa zona de conforto, me aflijo. Até concordo com essa coisa Piagetiana do conflito, da assimilação e da acomodação. Parece-me que é isso mesmo que move a gente, o incômodo, e é certo que outros  (Freud, Vygotsky, Klein) já falaram sobre esse assunto. O que me "incomoda" é como lidamos com essa situação na atualidade, tendo em vista que o mundo (a sociedade, as pessoas, everybody), nos bombardeia com a idéia de cura rápida. Uma coisa meio fast-food mesmo. Não parece ser permitido o tempo do sofrimento, da elaboração para a acomodação de novos esquemas. Se dói a gente toma um remedinho. E toma um remedinho porque não pode parar. Como assim, não pode parar? Como se não fossemos sujeitos de nossa própria vida. Talvez, provavelmente, essa desapropriação de si seja resultado de um processo sócio-histórico-econômico. Onde o trabalho toma parte primordial da existência [adendo da transcritora: o produzir parece ter esse papel, mais que o trabalho]. E com 80% da palavra trabalho quero dizer chefe. Em última instância, o chefe é o dinheiro. Ficar doente causa improdutividade do indivíduo e consequente improdutividade da organização. E se a doença física é questionada e deve ser provada, as doenças da ordem da psique são ignoradas, até mesmo quando se tornam físicas. Não há tempo para resolver o incômodo nem para assimilar, tampouco para colocar as coisas no lugar. Não há tempo para respirar antes da nova descarga do corpo.
Acho que a busca pela felicidade hoje é a busca por um "colocar as coisas no lugar" [e aquietar o "espírito"]. Ao mesmo tempo, me parece que a natureza humana busca o ciclo, o aprender continuamente, o frustrar e o recolocar. Procurar a felicidade na estabilidade (e nos livros de auto-ajuda) me parece bastante fugaz. É como descer uma montanha com uma corda de meio metro acreditando que ela vai aumentar por algum milagre. Talvez seja a hora de carar quando a corda acaba, aceitar que acabou, recolhê-la e pensar em como continuar descendo; [o instrumento está dado, a gente só tem que usar...]

E aí eu acho que estou falando de mim e não do mundo, afinal, a nossa referência pra olhar pra fora deve ser mesmo olhar pra dentro. Isso reforça cada vez mais a idéia que tive semana passada, de sair por ai perguntando coisas para as pessoas do mundo... Acredito ter achado a grande pesquisa da minha vida. E tenho cada vez mais certeza de que desejo escrever uma teoria nova, ou pelo menos uma releitura das teorias do mundo, a partir da escuta. A minha parte psicóloga agradece e se entusiasma...

0 comentários:

Alguém disse...

  • "Ao tomar emprestadas as palavras, seja possível emprestar também a força delas, porque na poesia podem ser sempre encontradas razões, inspirações e coragem para continuar." Ana Lucia
  • "Esse é que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode achar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve 'Foda-se' bem na cara da gente." Salinger
  • "Eu acho que se todas as pessoas fizessem alguma coisa pelos seus próprios pedaços, de repente a gente teria uma grande revolução." Elis
  • "Há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência." Neruda
  • "Mesmo nossa própria dor não é tão pesada como a dor co-sentida com o outro, pelo outro, no lugar do outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos" Kundera
  • "Time is never time at all, you can never ever leave without leaving a piece of youth." Pumpkins
  • -"Porque você está vestindo esta fantasia idiota de coelho?" -"Porque você está vestindo esta fantasia idiota de humano?" Kelly